QUEM ERA MELQUISEDEQUE?
Introdução
Como o texto bíblico não identifica com certeza e precisão quem era Melquisedeque, esse personagem sempre foi um grande enigma. Por isto, sempre se conjeturou e muito acerca dele. E o que mais nos fascina é que Jesus é chamado nas Escrituras "Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque" (cf. Hb 5:6). Portanto, identificar essa figura não é tarefa de somenos importância.
Lendas e Mistérios
Uma vez que a figura de Melquisedeque sempre esteve envolta em mistérios, ao longo dos séculos deu origem a inúmeras lendas. Os orientais, por exemplo, referem-se a um certo "rei do mundo", enigmático, e por eles considerado a mais alta forma de consciência divina na terra vivendo num lugar oculto denominado "Shambhala". Eles dizem que esse ser quando se manifesta por alguns segundos na terra
toda natureza pára. É como se o tempo parasse, nada se ouve, os animais se põem quietos e os passarinhos nem ao menos gorjeiam. Tudo silencia, não se escuta nem o murmúrio dos rios, nem o farfalhar das folhas, nem o rumor das ondas do mar... tudo é paz e silêncio. Em tais momentos uma pessoa bem equilibrada sente algo bem especial, tem uma sensação como que se tudo houvesse parado e o mundo inteiro ficasse envolto num manto de quietude e de imensa paz. Até o vento se torna quieto, nenhuma folha cai, nenhuma pedra rola, nenhum regato murmura, nem ao menos se ouve o murmúrio das fontes. Tudo é paz... harmonia... silêncio. É silêncio, mas ao mesmo tempo se percebe uma vibração sonora permeando todas as coisas. Segundo essa lenda oriental, é o momento de "grande paz", aquele momento em que o "rei do mundo", que segundo pensam é o "sublime Melquisedeque", abençoa a vida na Terra e revitaliza tudo. Em determinados momentos a natureza parece parar, o vento pára, todos os elementos da natureza silenciam, os animais aquietam-se, tudo se torna sereno, e os sensitivos e iniciados percebem isto claramente em determinados momentos não muito freqüentes. Naquele momento os galos cantam. Já os povos da Índia e outros povos que vivem nos planaltos do Himalaia, pensam que aquele é o momento em que o “rei do mundo” fala com Deus.
Melquisedeque Era Shem, o Filho de Noé?
Entretanto, a possibilidade mais plausível é que Melquisedeque seja uma personagem muito mais conhecida do que se imagina. Isto mesmo. Provavelmente, Melquisedeque era Shem (ou Sem), filho de Noé! Precisamos enfatizar que tal assertiva nem sempre tem recebido aceitação unânime. Na verdade, as opiniões são completamente divergentes.
Mas, será que existe mesmo tal possibilidade? Será que Shem e Melquisedeque eram a mesma pessoa?
Vejamos em seguida, os argumentos prós e contra essa opinião.
Melquisedeque Era Sem, Argumentos Favoráveis
O Targum de Jonathan diz que Melquisedeque é Shem (o filho de Noé, que em nossas Bíblias é sempre traduzido por Sem). Essa é a posição de maior consenso entre os escritores judeus, e até de muitos cristãos. E desejamos demonstrar que realmente é altamente provável ele estivesse vivendo à época de Abraão.
Devemos reconhecer que a questão de datação da História Antiga é bastante questionável. Até cerca de um século atrás, as datas do Antigo Testamento eram calculadas quase inteiramente à base das afirmações bíblicas. Duas dificuldades envolvem essa solução. Em primeiro lugar, o Antigo Testamento não provê todos os detalhes para essa tarefa, enquanto certas seqüências de eventos podem ser paralelas, e não consecutivas. Em segundo lugar, as versões antigas, como por exemplo, a Septuaginta, algumas vezes apresentam cifras que variam em relação ao Pentateuco Samaritano e ao Texto Massorético. Portanto, esquemas dessa espécie estão sujeitos a muitas incertezas.
Os eruditos modernos tentam correlacionar os informes obtidos tanto na fonte bíblica, quanto na Arqueologia, a fim de obterem datas absolutas sobre os hebreus e seus vizinhos. A partir de cerca de 620 a.C., é provida uma moldura geral pelo Cânon de Ptolomeu e por outras fontes clássicas que podem ser corrigidas e completadas por tabletes babilônicos contemporâneos, papiros egípcios, etc., sobre esses dois grandes estados fluviais. A margem de erro quase nunca excede a um ano, e em alguns casos é reduzida a uma semana dentro de um mês, ou mesmo é inteiramente anulada.
Boas datas, a partir de cerca de 1400 a.C. são disponíveis, baseados em informes da Mesopotâmia. Os assírios nomeavam um limmu ou epônimo oficial, sendo que seu nome era dado aquele ano. Conservavam listas desses nomes e freqüentemente anotavam acontecimentos sucedidos em cada ano, como, por exemplo, a ascensão de um rei ou uma campanha no estrangeiro. Assim, se qualquer ano puder ser datado por nossa computação, a série inteira também poderá ser fixada. Relativamente a esse período, a margem máxima de erro é de um século.
Boas datas, de cerca de 1200 a.C. recuando até 2100 a.C. podem ser obtidas em fontes egípcias. Essas incluem listas de reis, datas anuais em monumentos contemporâneos, equiparações cruzadas com a Mesopotâmia e com outros lugares, e alguns poucos fenômenos astronômicos datados com exatidão em alguns reinados. Embora as datações desse período estejam sujeitas à data atribuída a Hamurabi da Babilônia (hoje variando entre 1850-1700 a.C.), a margem de erro situa-se entre 15 a 20 anos.
Entre 3000 a 2000 a.C., todas as datas do Oriente Próximo estão sujeitas a grande incerteza, de até cerca de dois séculos, especialmente devido o fato que são inadequadamente ligadas com datas posteriores. Antes de 3000 a.C., todas as datas estão sujeitas a uma margem de erro de diversos séculos, aumentando essa margem conforme vai recuando no tempo. O método de computação do “Carbono 14” para as datas de matéria orgânica da antiguidade presta melhor serviço para o período anterior a 3000 a.C. e mesmo assim apresenta uma margem de erro de mais ou menos 250 anos. Por conseguinte, esse método é de pouca utilidade para a cronologia bíblica; as possíveis fontes de erro desse método que em si mesmo é científico, e a contaminação das amostras para serem datadas, requerem que o método do “Carbono 14” seja tratado com reserva.
Essa moldura relativa à computação de datas sobre a Mesopotâmia e o Egito, ajuda a fixar as datas das descobertas na Palestina e dos acontecimentos e povos da Bíblia; assim é que a história dos reinos hebreus fornece pontos de contato com a Assíria e a Babilônia. Os níveis sucessivos de ocupação humana, discernível pelos arqueólogos nos montões (chamados pela Arqueologia de tells) da antiga Palestina, freqüentemente contêm objetos datáveis que ligam uma série desses níveis com datas correspondentes na história egípcia até o século XII a.C. Daí por diante as alterações de ocupação podem algumas vezes ser diretamente associados com a história israelita, como a Samaria, Hazor e Laquis. As datas israelitas podem ser fixadas dentro de uma margem de erro de cerca de 10 anos na época de Salomão, o que é estreitado até quase a nulidade no tempo correspondente à queda de Jerusalém. As margens de erro aludidas, originam-se em leves diferenças de nomes ou cifras nas listas paralelas de reis, interrupções nas mesmas, reinados de duração ainda desconhecida, e as limitações de certos informes astronômicos. Só poderão ser eliminadas mediante descobertas futuras ou informes mais detalhados.
Esclarecidos os detalhes acima, podemos retornar à nossa apresentação da defesa da possibilidade de Melquisedeque ter, realmente, sido Shem (ou Sem).
Com base nas informações que têm sido consideradas mais seguras, lembrando que neste período a margem de erro pode chegar a 250 anos, vamos analisar a tabela abaixo:
ACONTECIMENTO BÍBLICO OCORRÊNCIA BÍBLICA DATA PROVÁVEL
NASCIMENTO DE NOÉ Gn 5:28,29 3056
NASCIMENTO DE SHEM (SEM) Gn 5:32 2556
O DILÚVIO Gn 7:11 2456
MORTE DE NOÉ Gn 9:28,29 2106
NASCIMENTO DE ABRÃO Gn 11:26 2066
CHEGADA DE ABRÃO EM CANAÃ Gn 12:4 1991
ENCONTRO COM MELQUISEDEQUE (SHEM) Gn 14:18-20 1990-1981
NASCIMENTO DE ISMAEL Gn 16:15,16 1980
NASCIMENTO DE ISAQUE Gn 21:5 1966
MORTE DE MELQUISEDEQUE (SHEM) Gn 11:10,11 1956
MORTE DE ABRAÃO Gn 25:7 1891
Analisando o quadro anterior, podemos chegar a algumas conclusões:
1) À época do dilúvio, Noé contava 600 anos, tendo gerado Shem quando tinha 500 (cf. Gn 5:32). Ou seja, Shem nasceu, provavelmente, em 2556, e tomando-se por base Gn 11:11, ele tinha 100 anos por ocasião do dilúvio e viveu mais 500 anos (Gn 11:11);
2) Se estes cálculos estiverem corretos, tomando-se por base que o dilúvio ocorreu em 2456, Shem morreu em 1956, quando Abraão contava com 110 anos. Isto nos leva a crer, que quando Abraão chegou em Canaã, Shem ainda vivia e contava com 565 anos;
3) Concluindo, podemos afirmar com toda probabilidade: 1) Shem foi contemporâneo de Abraão; Quando Abraão nasceu, Shem contava com 490 anos; 2) quando Abraão se encontrou com Melquisedeque (Shem), este tinha entre 566 a 575 anos e Abraão, entre 76 a 85.
Melquisedeque Era Sem, Argumentos Contrários
Até agora, apresentamos algumas argumentações que podem provar que Melquisedeque era mesmo Shem, o filho de Noé.
No entanto, como queremos primar pela verdade, dentro de uma visão ecleticista, necessitamos salientar que algumas objeções podem ocorrer com respeito à essa hipótese. Geralmente, os argumentos contrários mais sérios e questionadores são os seguintes:
1) Se, realmente Shem estivesse vivendo neste momento, porque o seu nome foi mudado?;
2) Por que ele foi apresentado como sendo sacerdote e rei?;
3) Por que o texto bíblico afirma que Melquisedeque não tinha ascendentes (cf. Hb 7:3) quando na realidade, a ascendência de Shem, bem como toda a sua genealogia é famosa e consta do livro Gênesis?
Melquisedeque Era Sem, Contra-argumentando
Muito bem. Esses argumentos, obviamente, precisam ser apresentados, mas, além disto, contra-argumentados:
1) Pelo que podemos observar do contexto, é preciso salientar que, certamente Melquisedeque era conhecido de Abraão. Quanto à mudança do nome, esse expediente não é fato desconhecido na Bíblia. Basta lembrar algumas ocorrências. Por exemplo: Jacó, cujo nome foi mudado para Israel (cf. Gn 32:27, 28); Barnabé, cujo nome original era "José" (cf. At 4:36); Saulo, que após sua conversão passou-se a chamar Paulo (cf. At 13:10). Além destes, é preciso ressaltar o caso de Azarias, o décimo rei de Judá (2Rs 15:7), que em Isaías 6:1 é chamado "Uzias".
2) Obviamente, Melquisedeque não poderia ser dos povos vizinhos, pois seu encontro com Abraão teve o intuito de felicitar-lhe pela matança de reis ligados àquela região;
3) O texto de Gn 14:18ss afirma que Melquisedeque trouxe "pão e vinho", não apenas como sacerdote para um sacrifício, mas como um rei generoso, a fim de proporcionar refrigério e alimento a Abraão e a sua cansada tropa, uma vez que o rei de Sodoma não poderia fazê-lo, porque os alimentos daquele lugar foram levados pelos quatro reis (cf. Gn 14:11). Como um rei hostil a Abraão poderia tratá-lo daquela forma, se a terra de Canaã havia sido entregue a Abraão através da promessa?
4) Com respeito ao fato de esse personagem ser chamado "rei", os Targuns mais antigos, afirmam que ele era rei de Jerusalém. Esta, também, é a opinião de muitos escritores, tanto judeus como cristãos, e pode ser observada na análise de um texto do Livro de Salmos, onde Jerusalém é chamada claramente "Salém" (Sl 76:2);
5) Quanto ao fato de ser chamado "sacerdote", é mister que recordemos que Melquisedeque fora chamado de "sacerdote do Deus Altíssimo". Isto não pode significar, apenas, que ele era príncipe dos cananitas. Mas sim, que ele era um homem piedoso e religioso, eminentemente levantando por Deus, e de quem a genealogia foi mantida um segredo. Certamente, essa omissão deve ter um motivo grandioso. Como pensam alguns estudiosos, isto poderia ter ocorrido exatamente para que ele pudesse prefigurar Cristo de forma cabal. Esta possibilidade pode ser demonstrada pelo fato de que ele é apresentado como "sacerdote do Deus Altíssimo";
6) Quanto ao fato de Melquisedeque acumular as funções de sacerdote e rei, é importante ressaltar que este costume era bastante comum na Antigüidade, quando muitos soberanos acumulavam essas funções;
7) Melquisedeque não era um sacerdote de uma divindade fenícia qualquer, mas do Verdadeiro e Vivo Deus que é acima de todos os deuses. Não fora assim, de forma alguma o seu encontro com Abraão teria se desenrolado da forma que foi e Abraão jamais lhe teria entregado o dízimo.
Conclusão
Conforme pudemos verificar, ao que tudo indica, Melquisedeque, o mais brilhante e perfeito tipo de Cristo, provavelmente, era Shem, filho de Noé, de quem mais tarde haveria de nascer o Cristo segundo a Carne. A Ele, o Rei dos Reis glória e poder pelos séculos.
Dados do autor:
Nome:
Pr. Lázaro Soares de Assis
Detalhes:
Ministro do Evangelho. Apascenta a Comunidade Batista Monte Moriá, em Ipatinga, Minas Gerais. É fundador e Diretor da FATEM, Faculdade de Teologia Monte Moriá (chrestos@ig.com.br). Sua formação inclui Bacharelado em Teologia, Filosofia da Religião e Educação Religiosa; Mestrado em Teologia, com especialização em Aconselhamento Pastoral; e Doutorado em Teologia, Filosofia e Ciências da Religião.